Migração de políticos para a Câmara falseia a renovação

Único deficiente visual na Câmara dos Deputados, Felipe Rigoni, exerce mandato pela primeira vez

Levantamento do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap) indicou que a taxa de renovação na Câmara Federal superou as expectativas e alcançou 52% nas eleições do último domingo, 7. Com isso, 267 novos deputados federais vão assumir o mandato no próximo ano. É o maior índice de renovação dos últimos 20 anos, informa a pesquisa.

No entanto, o próprio Diap reconhece que essa mudança de nomes não significa que haja políticos novos, mas sim que muitos ocupantes de outros cargos decidiram disputar uma vaga na Câmara dos Deputados. É o caso do ex-senador e ex-presidente do PSDB, Aécio Neves (PSDB) e da ex-senadora e presidente do PT, Gleisi Hoffmann, que foram eleitos deputado e deputada por Minas Gerais e Rio Grande do Sul, respectivamente.

No caso do Espírito Santo, a renovação de 50% na bancada federal foi totalmente atípica. Foram eleitos o comunicador Amaro Neto (PRB) e o policial militar Josias Da Vitória, que eram deputados estaduais, Soraya Manato (PSL), mulher do ex-deputado federal Carlos Manato, que foi candidato a governador para dar palanque a Bolsonaro e a pastora Lauriette (PR), mulher do senador Magno Malta.

O único político que pode ser considerado realmente novo é o cego Felipe Rigoni, de Linhares, que nunca foi detentor de mandato, embora tenha disputado uma vaga na Câmara de Vereadores do seu município em passado recente.

A pesquisa de renovação incluiu os que estavam em outros cargos ou que já tiveram mandato na Casa em outra legislatura e retornaram neste pleito. “Na realidade, o que houve foi uma circulação no poder, com o deslocamento de deputados estaduais, ex-deputados federais, ex-ministros, senadores e ex-senadores, ex-prefeitos e ex-governadores, além de secretários estaduais, para a Câmara Federal”, diz o Diap.

De acordo com o Diap, os deputados eleitos efetivamente novos – o que exclui os que vieram de outros cargos ou que estavam sem mandato, mas já foram deputados federais – são lideranças evangélicas, policiais “linha dura”, celebridades e parentes de políticos tradicionais.

O instituto constatou que, dos 513 deputados federais atualmente em exercício, 79% disputaram a reeleição, sendo que 60% destes conseguiram novo mandato neste domingo. Portanto, dos 407 deputados que concorreram à reeleição, 246 foram reconduzidos ao cargo. Em agosto, projeção da entidade previa que 75% deles deveriam se reeleger.

Para o analista político do Diap, André Santos, a renovação existe formalmente, mas deve ser relativizada pois não implica efetiva reestruturação política da Casa. “Houve por parte da própria sociedade uma espécie de ansiedade em mudar as características do Congresso. A sociedade quis, em tese, modificar o sistema político no Parlamento. Porém, isso não foi alcançado efetivamente quando a gente vê essa circulação de poder, pois muitos não são estreantes”. (Weber Andrade com Agência Brasil)